Você já deve ter escutado que a evolução tática recente do futebol fez com que os times atacassem com dez no campo adversário e que também se defendessem com dez em poucos metros. Os arquivos dos jogos antigos mostram que os times fazem isso há muito tempo.
Vejam a Suécia com os dez no campo adversário, os zagueiros construindo avançados, terminando a posse com o passe em profundidade, e a Alemanha inteira defendendo em poucos metros. Reparem no camisa 13 (Müller). Trechos como esse eram comuns.
Você também já deve ter escutado que a evolução tática recente do jogo obrigou os times a construirem de trás com os zagueiros. Isso também já era feito muito tempo atrás. Não só construíam atrás como muitos deles avançavam pelo 'toco y me voy'. Vejam Beckenbauer (camisa 5):
Não só o líbero fazia isso. O outro zagueiro alemão, Schwarzenbeck (camisa 4), também construía de trás e avançava com a posse, chegando até a entrada da área. Aqui, os dois zagueiros alemães chegam. Trechos como esse eram comuns em quase todos os times.
Não só os times que jogavam com líbero faziam isso. Vejam como Luis Pereira avançava de trás e buscava a tabela com os seus companheiros. Usando a Copa 74 como referência, basicamente todas as seleções tinham defensores assim. O argentino Heredia era um dos melhores com a bola.
As melhoras no condicionamento físico dos jogadores com o tempo trouxeram um preenchimento mais rápido dos espaços. O jogo tornou-se mais acelerado. Outros conhecimentos também foram acumulados. Todavia, podemos dizer que sempre existiu "sabedoria milenar" no jogo.
Muitas coisas que escutamos como recentes no futebol sempre estiveram lá. Contudo, essa sabedoria varia de acordo com cada cultura e visão de mundo. Com o tempo, essa sabedoria é reatualizada, reinventada.
Quem está acostumado com os mecanismos dos times de Guardiola não terá qualquer problema em reconhecer esses mecanismos na Holanda de 74. Essa sabedoria, de acordo com sua cultura, sempre esteve lá e foi apenas apropriada, reatualizada, reinventada no presente.
Do mesmo modo, quem está acostumado com a história do futebol brasileiro e a influência do futebol de rua e do futsal nele não ficará surpreso com o estilo de Diniz. Essa sabedoria também foi apropriada, reatualizada, reinventada.
A historiografia que trata a tática a partir de um modelo de darwinismo social, agindo uma seleção natural que escolheria a tática mais apropriada para o presente, é um equívoco desastroso ao futebol.
Essa historiografia criou uma sensação de que só se pode vencer hoje a partir do modelo hegemônico, destruindo a memória e o direito ao nome de outras culturas futebolísticas. Muito do que se faz hoje sempre se viu no futebol. E o jogo continua aberto para várias apropriações.
Ou seja, a execução muda e se reiventa, mas a concepção é muito mais antiga e persistente no futebol.
