Published: May 5, 2025
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Quero falar com vocês sobre Depressão. Não sou médico, psicólogo. Sou um homem de 40 anos, branco, hetero, que teve e aproveitou todas as oportunidades da vida e que tem a noção exata do privilégio de estar nessa posição. Ainda sim, não fui feliz a maior parte da minha vida.

Ainda adolescente veio o primeiro diagnóstico de depressão. O psicólogo da escola do ensino médio me encaminhou ao psiquiatra. Esse mesmo diagnóstico foi se repetindo ao longo do anos, até que eventualmente, não faz muito tempo, ganhei o selo de depressivo crônico.

O que é ter depressão? Eu posso responder isso da posição de alguém que sofre desse mal, e não da posição de um psiquiatra, psicólogo, cientista, pesquisador ou o que o valha. Portanto tudo o que eu falar a partir de agora é um testemunho de quem convive com isso.

Indo direto ao ponto: a depressão é uma doença. A tristeza é apenas um dos vários sintomas. Comigo, a depressão, inclusive, chega com o sono, não com a tristeza. Meu corpo e minha cabeça sentem um cansaço extremo de existir, e eu durmo, ou melhor, apago por horas.

Duvido que seja assim com todo mundo, mas é desse jeito comigo. Esse sono entorpecente qnd surge é o meu primeiro sinal de alerta de que algo está fugindo da normalidade. E eu levei décadas pra entender isso em mim.

A tristeza profunda, a vontade de encarar o nada, vem depois, seguida pelo abandono da vontade de fazer coisas banais e normais: comer, trabalhar, cuidar da casa, cuidar da higiene.

Mas isso tudo que se torna aparente são apenas os sintomas de uma doença silenciosa, que se aloca dentro da minha cabeça e planta no meu corpo uma dor abstrata que não tem fim.

Mas aqui tem um ponto crucial, algumas vezes essa dor surge por algum fator externo: uma decepção, uma perda, um trauma… mas muitas outras vezes, a dor, o sono, a tristeza e, por fim, o abandono das atividades funcionais podem vir sem qualquer motivo aparente.

Gastei uma infinidade de horas em terapia para entender como funciona minha própria cabeça, e tomei uma variedade de fármacos que ajudaram muito, mas não resolvem o problema por si só Isso pq ainda existe um desafio mto maior que o depressivo encontra na jornada de recuperação

O maior desafio é justamente aquilo que não depende de mim, mas do entorno. O grande mal que pode acometer a uma pessoa com depressão e criar uma barreira pra recuo dos sintomas é a solidão e o julgamento. Vou falar dos dois individualmente.

1. A Solidão Você goste ou não, nós depressivos estamos por ai. Só no Brasil estima-se que somos cerca de 11 milhões de pessoas. E essas pessoas podem ser o seu vizinho, sua chefe, seu professor, sua melhor amiga, um tuitero idiota que vc segue, sua irmã, seu pai.

Enfim, pode ser qualquer um na sua vida. Se você conhece 25 pessoas, a chance de ao menos uma delas ser depressiva é gigantesca. Para você ter uma ideia, portadores de doenças cardiovasculares são estimados em 16mi no Brasil.

Ou seja, 16mi de cardíacos e 11mi de depressivos. É gente pra caralho, né? E todo mundo sabe quem é o parente que tem pressão alta, o amigo que enfartou, o colega que possui marca-passado, mas ngm fala do vizinho que ngm tem contato, do amigo que tentou se matar.

Depressivos em crise são tóxicos, ou pelo menos assim nos sentimos. Todo mundo fala em ajudar, “cuidem um do outro, prestem atenção nos sinais”, mas quer saber, na realidade, qnd estamos em crise, somos deixados sozinhos, pq poucos tem a empatia para lidar com essa dor.

E a solidão faz a gente entrar em looping de dor. E não adianta falar que com você é diferente, pessoas que juraram me amar pelo resto da vida, eventualmente me abandonaram qnd estive no pior, e eu não julgo, pq a maioria abandonaria mesmo. Poucos sabem como lidar.

No nosso pior momento, estamos só. E ai q terapia ou remédio vai funcionar se a vida “prova” que sou descartável? E então, sabe quem vai ficar ali comigo até o final? O outro depressivo, o ansioso, o bipolar, pq só eles entendem de verdade como é a vida de uma mente partida.

2. O Julgamento E antes do abandono, o que se precede é o julgamento. Vamos lá, dentro do estado de depressão, com essa dor abstrata, essa tristeza profunda, o que sentimos pessoalmente é inadequabilidade, não pertencimento, esvaziamento.

Nos sentimos menores, inferiores, incapazes. Ou seja, nós depressivos somos os piores juízes de nós mesmos. E por conta da falta de compreensão exata do que sentimos, na maioria das vezes, quando buscamos apoio, encontramos julgamento.

“Nossa, mas como assim vc está triste? Olha vc é saudável, tem um emprego legal, ganha bem, realizou seus sonhos, tem um filho perfeito, tanta gente passando necessidade, como assim vc não é feliz? Nossa, como vc tem coragem de tentado se matar, não pensou na dor que vai causar?”

Eu ouvi coisas desse tipo de amigos, dos meus pais, de namoradas, esposa, de absolutamente todo mundo. Às vezes de forma mais aberta, outras vezes mais sucinta e delicada, como tentar mostrar o lado bom de algo. Mas simplesmente não é assim que as coisas funcionam!

Você já viu alguém enfartando? Por acaso alguém chega do lado e começa a falar “vai coraçãozinho, volta a bater, por favor, essa pessoa ainda tem muito o que viver, bate ai, por favor” Pois é, então não adianta chegar pro depressivo e falar pra ele enxergar o lado bom da vida!

A única coisa que existe nesse momento é culpa e validação do nosso próprio auto julgamento cruel. Pq a pessoa fala, na melhor das boas intenções, mas o que vc sente é: caralho, verdade como assim eu sou triste tendo essa vida “perfeita”? Pq eu sou incapaz de ser feliz?

E eu tenho a noção exata de que todo mundo que julga o faz sem saber que está julgando, faz por achar do fundo do coração que está ajudando. Mas infelizmente, nada disso funciona, porque a culpa apenas alimenta a depressão.

E sabe quem termina não julgando a gente? Justamente eles de novo, aqueles que assim como eu também sofrem de algum outro mal invisível. É por isso que a gente acaba se juntando, e acaba cuidando um do outro, e tenta de alguma forma se sustentar na pesada obrigação de existir.

O meu pai só deixou de interpretar a minha doença como frescura, coisa de viado, qnd eu fui parar em um hospital por conta disso, e na segunda vez, pq na primeira ele sequer ficou sabendo. E relatos como esse são comuns entre todos que convivem com os estágios críticos desse mal.

Então vc que chegou até aqui pode se perguntar, ta bom, vc falou o que atrapalha, mas como eu posso ajudar? Pois bem, não abandone, não julgue.

1. O depressivo precisa de companhia. Em alguns estágios mais graves, alguns podem se tornar incapazes de fazer tarefas básicas, como preparar uma refeição, cuidar da casa, cuidar de si. Visite esse amigo, cozinhe pra ele, assista um filme ao lado. Abrace. Esteja presente.

Você não precisa querer entender a tristeza, você não precisa saber o motivo para conseguir ajudar. Saber o porquê de uma pessoas estar em depressão simplesmente não muda absolutamente nada, você não precisa de um motivo pra ser empático, apenas seja, apenas esteja ali.

E sabe por que você não deve se preocupar por isso? Por que na maioria das vezes eu tb nao sei pq estou mal, não sei pq choro tanto a ponto dos músculos do meu corpo inteiro doerem como se eu tivesse levado uma surra. E se eu não sei, como é que eu vou explicar pra você o vazio?

Portanto, esteja ali, seja presente, cuide, escute, acolha. E isso entra na segunda parte: 2. Não julgue, conforte. A solução da depressão de alguém não depende de você, não é sobre você.

Se o teu marido tem depressão, isso não é porque você é uma esposa ruim. Se tua filha tem depressão, não é porque você é um mau pai. A depressão não é um sinônimo de ingratidão.

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